A leitura com dedicação

A leitura bem feita deflagra um complexo exercício interior de difícil descrição. Ao ler, ponho em ação os sentimentos, a vontade, a memória, a imaginação, a inteligência. Nasce dentro de nós uma agitação bem organizada, como a dos formigueiros e das colméias. As palavras são verdadeiras embaixatrizes da realidade. Fisicamente distante de um vulcão, trago-o para perto, para dentro de mim quando leio a palavra “vulcão”. Aparentemente absorto do mundo e distante de todos, o leitor, na verdade, está fugindo em direção ao mundo, está se unindo a todos.

A fome de conhecer e de amar através da leitura manifesta-se claramente quando recorremos ao dicionário, o “pai dos inteligentes”, a fim de descobrir ou ampliar a definição de palavras desconhecidas e, portanto, abraçar novas facetas da realidade e da humanidade, abraçá-las e deixar que elas nos abracem.

Mas para abraçar o máximo de realidades veiculadas pelas palavras é necessário um esforço adicional: concentrar-se.

Uma leitura dispersiva é pura perda de tempo. Concentrar-se pressupõe abrir o livro com a disposição de dedicar-se à leitura.

Dizem, em tom de brincadeira, que D. Pedro II lia muito bem porque o fazia com os cinco sentidos. Com a vista, naturalmente; com o tato, segurando o livro; com a audição, ouvindo o barulho das páginas ao serem folheadas; com o olfato, sentindo o cheiro da tinta impressa; e com o paladar, quando molhava o dedo indicador na língua para virar as páginas com mais facilidade…

O cúmulo da leitura dispersiva é fazer como aquele que vai ler para pegar no sono. As regras dessa arte são muito simples: “Meta-se na cama numa posição confortável, certifique-se de que a luz é insuficiente, de modo a causar ligeira fadiga ocular, escolha um livro que seja tremendamente difícil ou tremendamente maçante — de qualquer forma, um que realmente pouco lhe importe ler ou não — e estará dormindo em poucos minutos. Os peritos em repousar com um livro nas mãos não precisam esperar o anoitecer. Basta-lhes uma cadeira confortável na biblioteca a qualquer hora” [Mortimer J. Adler, A arte de ler. Rio de Janeiro: Agir, pág. 54.].

E, falando em dispersão, lembro-me que não foi uma só vez que presenciei (e até participei) do seguinte diálogo:

— O que você anda lendo atualmente?

— Estou lendo um livro legal!

— Ah, é? E como se chama?

— Como se chama? Quer dizer… o título dele?

— Isso, o título.

— Esqueci…

— Mas quem é o autor?

— Ah, o autor é… é… Como é mesmo o nome do autor?

— É brasileiro?

— É. Acho que é… Escreve legal…

— Você não lembra do autor nem do título?

— Olha, é um livro dessa largura… e tem capa verde… Mas é legal!

Se a cor da capa e o tamanho são as únicas referências do livro retidas pelo distraído leitor, será que ele está realmente aproveitando a leitura?
LER, PENSAR E ESCREVER
Gabriel Perissé

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